Algumas perguntas que sempre são feitas a Erasmo Carlos, e outras mais...
Como você conheceu o Roberto Carlos?
> Conheci o Roberto em 1958, ele estudava no Colégio Ultra, na Praça da Bandeira, fazia o curso de admissão em três meses, o que hoje seria uma espécie de vestibular para o Segundo Grau. Então a gente se via... Nada de aproximação, a gente se cumprimentava assim: "Oi". Eu fazia datilografia lá. Ele já cantava na TV Tupi, no Clube do Rock, que entrava todas as terças- feiras, de 12h45 até às 13h. Eram três números musicais, um quadro apresentado pelo Carlos Imperial dentro do programa do Jacy Campos. Como eu gostava de rock, tudo de rock eu sabia, via o programa e identificava: esse cara estuda lá no Ultra... Um dia, dois amigos em comum, o Arlênio (Lívio) e o (Édson) Trindade levaram o Roberto lá em casa. Me apresentaram e eu disse: "Já conheço você do Colégio Ultra e da televisão". Ele falou: "É o seguinte: estou precisando de uma letra, disseram que você tem todas as letras aí de rock. É uma letra pra eu cantar no pré-show do Bill Haley e Seus Cometas". Eles estavam vindo pro Brasil, iam tocar no Maracanãzinho. Ele queria a letra de "Hound Dog" e eu tinha. Pegou, ficou cantarolando, a gente conversou e ele depois disse: "Aparece lá no Clube do Rock, o pessoal lá é legal. Vai lá ver o show da gente no Maracanãzinho". Eu aí fui,fui no Maracanãzinho, comecei a freqüentar a televisão... Ele mandou aparecer, eu comecei a aparecer, né? Então aí fui conhecendo a rapaziada toda... Conheci o Imperial, que depois me convidou pra ser assistente dele - ele tinha programa de rádio, tinha programa de televisão. O secretário dele era o Simonal. Quer dizer: o Simonal lançou um disco, então saiu, não iria mais ser secretário dele. E eu tava ali dando sopa, peguei o emprego, fui conhecendo as pessoas todas e daqui a um pouco já estava no Renato & seus Blue Caps.
De uma vez por todas: você foi dos Sputniks, junto com o Roberto Carlos e o Tim Maia?
> Não. Eu nunca participei dos Sputniks. Os Sputniks eram um conjunto com Arlênio Lívio, Wellington e Tim Maia. Eu nem cantava nessa época, sequer vi um show dos Sputniks. Na época soube é que eles tinha brigado: o Tim Maia foi cantar sozinho, o Roberto foi cantar sozinho e o Arlênio, que adorava esse negócio de conjunto vocal, me convidou para fazer parte dos Snakes, um grupo vocal. E montamos os Snakes: eu, Arlênio, o Édson Trindade e o Zé Roberto, o Chininha. Aí começamos a ensaiar nossas músicas e fomos fazer vocais para o Roberto Carlos, que já cantava sozinho, era o "Elvis Presley brasileiro" (o nome que o Carlos Imperial deu), e para o Tim Maia, que era o "Little Richard brasileiro".
A gente participava de shows do Clube do Rock. Os Snakes faz iam a primeira entrada, cantando Del Vikings, depois acompanhá vamos o Tim, e depois Roberto Carlos. Então, eu nunca participei dos Sputniks e o Roberto Carlos nunca participou dos Snakes. Ele cantava acompanhado dos Snakes, era diferente.
E antes de eu saber tocar violão, a gente cantava nosso repertório, The Platters, The Marcels, "Blue Moon", e o Roberto era quem acompanhava a gente. Mas ele não acompanhava do palco, acompanhava lá de trás, dos bastidores, pra ninguém ver. A música surgia do nada...
Como é o seu processo de composição com o Roberto Carlos?
> Quando nós dois compomos, trabalhamos sempre à noite, pois não toca telefone nem campainha e a concentração é bem maior. Rezamos antes, pedindo a Deus que nos dê inspiração, orientação, equilíbrio e sabedoria. Pedimos também paz para o mundo, saúde e proteção para os nossos e para todos os cantores, autores, técnicos, produtores, músicos etc. Também temos sempre um la nche pronto para ser desgustado, com café, chá, biscoitos, torrada, água, mel e adoçante. Não podem faltar papel, caneta, gravador, dicionários (Aurélio, Sinônimos & Antônimos e o de rimas), teclado e violão. Desenvolvemos nossos temas como um cineminha, usando cortes, closes e câmera passeando para descrever a cena imaginada. Às vezes choramos emocionados quando acabamos e somos invadidos por uma sensação de dever cumprido - e também uma esperança de que a nova canção contribua de forma otimista para as pessoas que vão ouvir. Outra coisa que também que não pode faltar são óculos, senão a gente não enxerga nada daquilo que está escrito. Ultimamente, esses encontros acontecem sempre na casa do Roberto...
Qual o envolvimento autoral do Roberto Carlos nos seus discos?
> É muito simples: quando a gente não está junto, cada um está anotando seus temas, idéias. E fazendo músicas, deixando registrado. A gente escolhe, seleciona e quando se encontra, mostra em gravador ou no papel. Conversa e resolve assim: vamos desenvolver essa aqui. Quando é o meu disco, prevalecem as minhas músicas. Eu conduzo a história, ele me ajuda a organizar. Quando é ele quem vai gravar, já vem com tudo. "Ó, vou fazer uma música assim, é essa aqui... Eu queria falar de uma mulher assim assado que fez isso... Eu queria que no final acontecesse isso e tal. Ele tem uma certa bronca de quando eu mato o personagem da música no fim, ele não gosta. A gente tem várias brincadeiras internas, né? Quando a música é pro meu disco, ele sempre fala: "Olha lá , hein? Não vai matar o personagem não, né? É final feliz, com o é que é?". Aí eu digo: "Olha, nessa aqui o personagem vai mo rrer, vai morrer, sim". Que nem acontece em "Cachaça Mecânica".
Até o "Haroldo, O Robot Doméstico" (música gravada em 1974) morre...
Você pode dar exemplos concretos de como vocês dois dividem as tarefas nas composições?
> É difícil dizer, vai no bolo. No meu caso, prevalecem as imagens. Eu crio muitas imagens, vou falando. É como publicidade: vamos falando e toda besteira é válida. É o cineminha que a gente vai fazendo. Eu imagino uma coisa, por exemplo: o cara estava longe, viajando, e volta pra casa. Quando ele chega em casa, a gente começa com a câmera, né? Faz o cineminha. O cara se aproximando, parou em frente à casa dele, né? O que que ele vê? O cachorro... essa imagem é boa. O cachorro ficou feliz quando viu o dono, vem abanando o rabo. Aí a gente tem que botar essa imagem em forma poética. Então o cachorro abanando o rabo vira "meu cachorro me sorriu latindo". Aí o cara entra, o que ele vê dentro da casa? O retrato amarelado na parede. A gente faz uma espécie de laboratório, vai anotando as imagens, as rimas. E a gente se diverte muito com isso. Porque de vez em quando começa imaginar besteiras, e a ir atrás dessas besteiras. As coisas vão ficando até surrealistas e a gente rindo à beça.
Vocês têm muitas músicas guardadas com essas "besteiras"?
> Olha, nós temos uma porção de músicas que são só bobagem. A gente pára pra lanchar e começa a cantarolar um negócio. Aí o outro já pega o violão, já começa, aquilo vai virando outra co isa, daqui a pouco já tem uma coisinha iniciada, uma "besteira" iniciada. Mas aí fica gravado, a gente não desenvolve...
E um dia isso poderia ser lançado?
> Ah, um dia vai pintar, um dia vai pintar... As fitas ficam com o Roberto, fica tudo arquivado lá com ele.
Alguma vez você já mudou de idéia ou se arrependeu de alguma coisa depois de ler uma crítica?
> Já fiquei puto da vida um monte de vezes, mas não mudei de idéia. Pelo contrário: persisti naquilo que eu estava fazendo. Desde que eu surgi, na minha carreira, sempre me deram três me ses de vida. Se você ver as críticas na época da Jovem Guarda, era sempre "daqui a três meses ninguém fala mais nele". Se eu
me abatesse com as críticas, já estaria em outra profissão. Tinha um cara que dizia que eu deveria ser estivador, que eu estava na profissão errada, que tinha físico de estivador, que usava boné de estivador.
Reza a lenda que o Tim Maia lhe ensinou alguns acordes e você já saiu tocando rocks. Você lembra do momento em que descobriu que podia realmente fazer música?
> Não, isso é igual aprender a ler. Você não lembra o dia em que aprendeu, mas vai aprendendo e, quando vê, já está lendo. Lembro que descobri que, com aqueles três acordes que sabia, eu cantava um mooonte de rock. Invertia um acorde, passava pro outro, aí comecei a aprender os mesmos acordes em outros tons. Então aí, bicho, eu comecei a fazer uma festa, porque comecei a cantar tudo que era rock. Era tudo igual... Saí cantando por aí...
Como foi que você trouxe influências da soul music para a Jovem Guarda?
> Eu sempre tive influência da música negra americana. Desde menino, sabe? Gostava muito do Louis Armstrong, depois foram os grupos vocais, o rock´n´roll, eu adorava. Otis Redding, Little Stevie Wonder, naquela época era "Little", LittleAnthony & The Imperials, The Coasters, que eu adoro até hoje. Eu sempre gostei de boates, e nas boates eu conhecia aquelas músicas todas, a soul music, as primeiras levadas funk, do James Brown e de outros. O Billy Stewart (cantor negro americano que fez sucesso em 1966 com uma versão de "Summertime" cheia de scats), por exemplo me influenciou antes. Eu até dei umas imitadas nele,
ora usando metais, ora tentando fazer scats. Em "Cara Feia Pra Mim É Fome", quando eu faço tkdi-da, tkdi-da, é dentro dos meus limites, mas na minha cabeça eu estava imitando o Billy Stewart. Depois o Tim Maia voltou dos Estados Unidos e disseminou mais a coisa. Ele fez vocal em "Baby", uma música que eu gravei, e nela a gentenota o vocal dele, você ouve e diz "é o Tim!".
O que matou a Jovem Guarda?
> Superexposição de mídia. O contrato da gente era pra fazer o Jovem Guarda e mais quatro programas por mês, o que passasse disso era extra. Então a gente queria que passasse para ganhar extra; todo mundo queria fazer 500 programas por mês... A gente fazia Jovem Guarda domingo; terça-feira, estava no Agnaldo Rayol Show; na quarta-feira, no Wilson Simonal Show, sexta, no Bossaudade, com a Elizeth Cardoso. Daqui a pouco, sábado, estava no Astros do Disco , depois, fazendo programa de culinária de tarde... Outro fator foi a acomodação musical. Então, numa época em que eu deveria estar diversificando e procurando novos rumos, novas influências, me acomodei. Porque era muito fácil pra mim:
o telefone tocava - "Ó, cê tá no programa tal" - , eu saía de casa, chegava meia hora antes, o Caçulinha já sabia o meu tom - "sol maior!" - e cantava lá, "Sentado À Beira Do Caminho". Aí foi o Tropicalismo surgindo, sabe? O público já querendo novidades, o modismo passando... Já tinha cabeludos mais cabeludos do que a gente, roupas mais extravagantes do que as nossas... Aí o Ibope foi caindo.
Muitos artistas até hoje vivem de reviver a Jovem Guarda, mas você, logo no começo dos anos 60, tratou de sair abrindo outras frentes na MPB. Como isso aconteceu?
> Para mim, foi importantíssimo mudar minha vida totalmente no final da Jovem Guarda. Saí de São Paulo e fui pro Rio depois de sete anos morando lá. Me casei e mudei de gravadora. Foram três coisas importantíssimas na minha vida. Passei a conviver com outros artistas, fui influenciado por outras pessoas. Se e u tivesse ficado em São Paulo , me casado lá, não acredito que estivesse hoje onde estou. Foi lindo e maravilhoso ter ficado lá, foi o lugar certo, foram as pessoas certas, mas o ciclo tinha se esgotado.
No começo dos anos 70 você viveu o que chama de "minha fase hippie". Como foi essa fase?
> Eu me mudei para o Rio, me casei e teve o aprendizado com outros cantores e tal... Passei a fazer uma música diferente, mais utópica, né? Abandonei certos temas inconseqüentes, passei a pensar em coisas sérias - eu achava sérias, podiam não ser, mas eu achava sérias. Estavam na minha mão os destinos do mundo, eu queria contribuir de alguma forma para consertar o mundo, achava que era possível tudo se ajeitar para a felicidade geral. Também comecei a usar roupas hippies e a usar drogas. Nunca na vida usei nada injetável, mas o resto, tive experiência com tudo. Foi uma fase da minha vida de ver como era e, de uma fo
rma e de outra, ter personalidade para dizer não. Porque as situações existiam, à toda hora, todo momento... Essas experiências me mostraram que não é por aí, e que é melhor você estar são mentalmente, para ser dono de você e controlar o imprevisto.
Conte sobre os seus tempos de rock´n´roll em meados dos anos 70, tocando com Liminha e Dinho, ex-Mutantes, na Companhia Paulista de Rock...
> Bom, em 1975, eu estava tocando com dois cariocas, o Rubão Sabino (baixo) e o Ion Muniz (sax). Fomos a Sã o Paulo, falei com o Liminha e com o Dinho, que já tava desistindo de tocar, querendo trabalhar com publicidade. Aí eles chamaram um tecladi sta, o Sérgio, que na verdade era baixista. O Liminha estava cansado de fazer rock progressivo. Não agüentava mais, ele me falou assim mesmo: "Não agüento mais tocar Yes, quero uma coisa mais alegre, pra brincar, pra gente se divertir no palco". E eu, que andava sofrendo para caramba com a onda do rock progressivo - todo mundo querendo tocar complicado, com mil convenções... o
s músicos tinham vergonha de tocar rock´n´roll - , não achava músico para tocar comigo. Aí foi ótimo. A banda não teve muito tempo de duração, mas fizemos shows memoráveis. Fizemos temporada no Teatro Bandeirantes e tocamos no Holywood Rock no Rio. A própria Hollywood não reconhece - a Souza Cruz não sabe direito do próprio passado, mas esse festival aconteceu. Era eu, Rita Lee, Raul Seixas, O Terço, Tony e Celi Campelo e na produção do evento, Nelson Motta. A gente ia fazer no campo do Fluminense, mas choveu no dia, foi adiado. Aliás, danificou todo o equipamento de P.A. da Rita, que foi uma das primeiras artistas a ter aparelhagem própria. Na segunda data também choveu e transferir para o campo do Botafogo. Aí fizemos, filmaram e até passou no cinema. Depois, a gente a fazer o festival em São Paulo , ia ser um showzão em Interlagos. Eu já estava na cidade, no hotel, mas aí a polícia descobriu um cara com um monte de ácidos. E a polícia foi, pega daqui, pega dali, o cara falou que ia vender no festival os tais ácidos. Qualquer coisinha era motivo para a repressão cair de pau, né? Aí, resultado: a Souza Cruz achou que tinha sujado, retirou o patrocínio, foi cancelado o festival e toda uma turnê que nós íamos fazer. Me lembro que eu a Rita , nós perdemos uma grana, eram mais de 10 shows... Aí eu desfiz a Cia. Paulista de Rock.
Muito se fala sobre os carrões dos artistas na época da Jovem Guarda. Você chegou a ficar rico naquela época?
> O que se ganhava, gastava. A preocupação da gente era ter um canto pra mãe da gente morar... Isso aí, todos nós pensávamos... Para quem vem da pobreza, esse eacute; o sonho. Mas não tinha o senso empresarial que há hoje. Naquela época, você fazia show, o cara não pagava, sumia com o dinheiro, te deixava no
meio do país sem nada, mil confusões...
Com que você ainda não trabalhou, mas gostaria de trabalhar?
> Tenho um desejo muito grande... Gostaria que um dia João Gilberto gravasse uma música minha e do Roberto: "Café da Manhã". Não sei se porque eu gravei com a Nara Leão em ritmo de bossa nova, mas acho que ficaria bem na voz dele. Eu sempre adorei música brasileira, inclusive não me considero roqueiro, sabe?
Me considero um compositor brasileiro, aberto para várias influências. Meu aprendizado não foi só o rock´n´roll, o rock´n´roll foi o que mais tocou. Mas eu sofri influência das big bands, da música caribenha, da seresta. Outro dia estava anotando, por curiosidade, os ritmos que eu presenciei na minha vida, e deu mais de 50! Mesmo que o jovem tenha a informação, ele não sentiu, não viveu aquilo, não entende a magia. Por isso, alguém pode ouvir um cha cha cha e achar: "Pô, mas é isso o cha chacha?" |