Mesmo que Seja Eu (2003)
13 CDs + 2 CDs Bônus
Prefácio / André Midani
Na época da Jovem Guarda eu não estava no Brasil, pois tinha saído da Odeon para trabalhar na Capitol mexicana em 1961. A Jovem Guarda pra mim era uma coisa distante, com a qual eu não tinha muita familiaridade. Mas, quando voltei ao Brasil para ser presidente da Philips em 1968, tomei conhecimento de algo que já nem mais era aquele fenômeno. De qualquer maneira, aí já estava o “rei” – segundo os tropicalistas Gil e Caetano. E a partir dali se definiu essa história de eu me aproximar mais da música do Erasmo do que do Roberto. Mas era batata: “Pô, essa é do caralho!” E aí alguém me dizia que essa música havia sido feita mais pelo Erasmo do que pelo Roberto. Uma pessoa que insistiu não sei quantas vezes para que eu me encontrasse com Erasmo Carlos foi Manoel Barenbein: “André, você tem que conhecer o Erasmo!”. Eu me lembro de ter pego um avião pra São Paulo um dia e do Manoel me esperando no aeroporto, para a gente ir pra casa da mãe do Erasmo – D. Maria Diva. Ali eu conheci o Erasmo. Por que eu quis conhecê-lo? Porque todas as músicas do Roberto que eu mais gostava eram aquelas em que o Erasmo metia a mão. Naquela época, eu achava um pouco injusto – profissionalmente – que o Roberto monopolizasse tudo, deixando o Erasmo bem tímido num segundo plano. Na minha visão pessoal, muito restrita, eu achava que o Erasmo era um artista mais interessante. Não posso negar isso. Anos depois, quando estávamos construindo a sede da companhia na Barra, eu estava entrando no pátio com meu carro e cruzei com Carlos Imperial, que bradou: “Midani, você é foda! Tirou o artista da cozinha e o botou na sala de jantar!” Na verdade, eu acho que o Imperial sacou exatamente isso.
Eu tenho uma grande admiração por Erasmo e meu papel ele foi o de sempre tentar lhe dar a confiança pelo talento que ele tinha e que continua tendo. O “Tremendão” era e é uma pessoa muito resguardada, de não querer ficar muito sob os holofotes. E eu acho que a única coisa que pude fazer por ele – já que talento, postura e personalidade ele tinha – foi certificar-lhe de quem ele era. No caso de Erasmo Carlos, foi importante ele encontrar em mim uma pessoa mais velha e com a qual tivesse uma afinidade muito forte, que lhe confirmasse sua qualidade – como homem, pessoa e artista. A tal ponto que eu acho que, na realidade, essa evolução só foi desembocar na tranqüilidade com a qual ele tem conduzido sua carreira nos últimos anos. Esse foi o trajeto, mas será que não teria sido melhor pra ele que a coisa tivesse acontecido mais rapidamente? Eu não sei, porque ele é como o vinho. Quando vejo Erasmo hoje em dia, eu penso comigo mesmo: “Olha, você tinha toda razão!”. Porque ele hoje virou um guru. Se fosse menos encabulado, talvez botasse pra fora um discurso que eu sempre chamo de “político” – mas que penso como algo mais comportamental e por isso da maior importância, como já se vê nas músicas dele.
O assunto dos festivais era muito falado na época. “Por que os festivais haviam acabado?” O último FIC havia sido feito em 1972 e eu me lembro de um grupo de trabalho que havia sido fundado – e que contava com Artur da Távola, Zuenir Ventura, Tarso de Castro, Nelson Motta e muitos outros. Eu precisava me cercar de pessoas inteligentes, afinal na gravadora estava trabalhando com Erasmo, Caetano, Gil, Bethânia, Raul, Chico, Rita etc. Era muita inteligência para um homem só! Eu achava que nunca daria conta intelectualmente daquela gente toda! Uma vez por semana eu me aconselhava com aquele grupo – e era como um ritual. Erasmo passou por lá uma vez e eu o ouvi falando sobre os festivais e comentando que eles haviam acabado porque eram competitivos. Fato é que um belo dia, inspirado nisso, a gente resolveu fazer a “Phono 73” – com três noites de Anhembi para gravar discos que poderiam vender até 160 mil cópias. Hoje precisaríamos vender 10 milhões de cópias e ainda dependeríamos de patrocínio. Erasmo foi um companheiro nisso, tanto no sentido de levantar o assunto quanto de conceituar o evento junto comigo e com o grupo de trabalho.
É difícil um presidente de gravadora, ou um diretor artístico, entrar na história pensando em tolher um artista. É melhor não ter o artista, entendeu? Eu sempre reconheci no Erasmo uma coisa fantástica, como foi – por exemplo – quando ele fez Sou Uma Criança, Não Entendo Nada . É tão verdadeira, acontece com todos nós. Como a linguagem do Roberto e do Erasmo é mais universal, eu achava que pudesse se tornar competitiva a nível internacional. Erasmo regravou algumas coisas em espanhol, coisa que nunca imaginei para Gil, Bethânia ou Caetano. A linguagem do Erasmo é universal, com letras tão bonitas e tão cheias de sabedoria e de originalidade.
Pessoalmente, eu adoro Erasmo. Fomos bons companheiros, porque o trabalho do presidente não era e nem é o de trabalhar no dia a dia com o artista. Para isso nós tínhamos Roberto Menescal, Jairo Pires, Nelson Motta e Manoel Barenbein – todos muito capazes. E é por isso que a Philips e a Polydor fizeram da companhia algo tão forte, com esse verdadeiro muro de talentos. O trabalho do presidente é o de estar com o artista e dar-lhe confiança, numa atividade diferenciada do diretor artístico. Afiança ao artista de que o último responsável pela companhia é completamente comprometido com o seu sucesso e com a qualidade de seu trabalho. O papel do presidente é esse e só pode exercer esse papel se a barreira da formalidade for destruída. Tudo fica mais fácil. No caso do Erasmo, me lembro que alguns dos piores porres eu tomei com ele. Passou lá em casa, bebemos e saímos pra jantar no Antiquarius. No final da noite, estávamos de porre e o gerente arranjou um carro para levar-nos em casa. Eu fui o primeiro a saltar e me lembro de ter conseguido sair do carro de pé, tendo entrado no prédio de quatro.
Quando eu saí da gravadora para montar a Warner no Brasil em 1977, meu pensamento era o de não convidar nenhum dos artistas com os quais eu já houvesse trabalhado na Philips. Eu me divertiria inventando qualquer outra coisa, por mais prepotente que fosse a idéia. Gil veio logo no início, mas espontaneamente, enquanto que Bethânia até falou em vir também. Quando veio a crise econômica de 1982, a Warner já era uma companhia importante... mas eu fui literalmente pego com as calças na mão, porque não tinha catálogo para explorar. Então tecnicamente fomos à falência, tendo que cortar contratos etc. Um belo dia sentei com o gerente de vendas e pensamos: “Pô, vamos convidar o Erasmo!” Fomos à casa do Erasmo, mas infelizmente ele não veio trabalhar com a gente. Eu nunca soube por que, embora esse tenha me empenhado pessoalmente em tirar da companhia.
André Midani
(em depoimento a Marcelo Fróes)
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